Numa qualquer varanda, numa qualquer cidade
Lígia estava caída no cadeirão que descansava na varanda. Lentamente, recobrava os sentidos, as cores definiam-se, os contornos tornavam-se claros, e a cidade surgia. Afogada ainda na torpe sonolência da inactividade, espreguiçou-se silenciosamente e ficou a olhar a profusão de telhados que compunha a cidade. Na noite eram apenas planos negros, indiferentemente sobrepostos na quase total escuridão permitida pela débil luz da lua, polvilhados de antenas que recortavam o céu em variados feitios.
Uma mancha escura e azulada assinalava o rio, que aparecia sobre os prédios e subia ocasionalmente pelas sinuosas ruas que lhe eram perpendiculares. Os barcos, iluminados, rasgavavam as àguas. O som dos motores, filtrado pela distância, era, para ela, quase imperceptível.
Gostava daquela zona da cidade. Suficientemente perto do rio para ver os barcos mas suficientemente longe para não os ouvir; suficientemente perto do centro e suficientemente longe para evitar o barulho e a confusão...
Olhou então para a cidade. Os candeeiros amarelados marcavam as ruas, qual mapa luminoso. Ao longe chegava-lhe o ruído, deturpadamente baixo, dos carros. Centenas de luzes amarelas e vermelhas subiam e desciam as ruas numa formicária agitação. Baixou os olhos para a sua rua, para admirar o contraste. Ali a rua permanecia vazia, à excepção de um ocasional carro perdido que desaparecia tão rapidamente quanto aparecera, não se demorando o suficiente para poder causar incómodo. Ao contrário do centro da cidade, ali não eram os carros que dominavam as ruas, mas sim as pessoas que, por outro lado, também não eram tantas como se poderia imaginar.
Não sabia que horas eram, mas isso também não importava. Afinal, não tinha nada mais para fazer. Não lhe apetecia sair, mas também nada a prendia ali. A diferença é que ficar lhe dava menos trabalho do que partir, e a mente cansada, desabituada da actividade, entorpecia-lhe o corpo. Estava presa naquele estado entre o sono e a consciência. Não queria adormecer, mas não lhe restavam forças para lutar contra o sono. Ia e vinha, desafiando as fronteiras da consciência, misturando realidades.
Nesse momento uma mão pousou-lhe suavemente no ombro e o quente cheiro do café invadiu-a.
Dirigiu-lhe um sorriso, tomou a chávena nas mãos e esperou que esta a aquecesse. A mão que lhe entregara a chávena sentiu-lhe o cabelo ruivo e ondulado, deslizou-lhe pela cara numa demorada carícia e depois, elogiando-lhe o corpo sob o toque, percorreu-lhe o pescoço, o peito, desceu-lhe pelo braço e alojou-se-lhe sobre uma das pernas.
Depois entreolharam-se em silêncio, a cumplicidade dos anos tornando as palavras supérfluas. Sorriram durante largos momentos, dando ao olhar oportunidade para se exprimir. Os olhares ricos, brilhantes e animados pelo fulgor daquela especial amizade. Lígia não se lembrava já de há quanto tempo se conheciam, mas não se esquecera que, desde então, era a única relação que conseguira manter. Todos os outros se tinham afastado, e isso fazia-lhe confusão. Quando se vira ao espelho naquela manhã tinha encontrado a mesma pessoa que todos os dias a olhava com as mesmas feições simples. Não, ela não tinha mudado, os outros sim.
- Em que pensas tu?
- Nada, nada... – respondeu Lígia evasivamente, voltando subitamente à realidade.
- Não tentes enganar-me... Já te conheço.
- Não é nada, a sério.
Um olhar sereno substituiu as palavras eficazmente. Lígia suspirou e rendeu-se.
- Estava a pensar na nossa relação... Perdi todos os meus amigos, sabes?... Todos menos tu. – parou durante breves instantes, soluçando – E eu só gostava de perceber porquê.
- Não tentes perceber. São eles quem devia perceber, não nós. O problema é esse... Nós estamos bem, por que não hão-de eles estar também?
- Sim, suponho que tenhas razão...
Lígia bebericou o resto de café que lhe morria na chávena e depois levantou-se.
- Está a ficar frio. – disse enquanto corria a porta de vidro da varanda - Vamos deitar-nos, Rita?
Hugo Picado de Almeida
26 de Outubro de 2006
Um abraço
Espero ansiosamente por outro texto teu.
Estou a reler a trilogia "Mundos Paralelos" de Philip Pullman. Não sei se faz o teu estilo. Infelizmente a traduçao manda uma foiçada de mão firme na beleza da escrita estrangeira.. oh!
Quanto ao Phillip Pullman, só conheço mesmo o nome; nunca li nenhum livro dele. Aconselhas algum?
Um abraço
Não faço a mínima do que gostas de ler, mas a trilogia, tal como o nome indica, baseia-se na existência de Universos Paralelos, mais ou menos parecidos com o nosso, mas a imaginação na criaçao de outros mundos está fantástica. Só para ter dar um glimpse: o primeiro livro decorre num planeta Terra, onde todas as pessoas teêm uma espécie de cosciência, no estado físico e de forma animal. E depois de certo modo vai buscar alguns dos mitos da física (particulas atómicas inteligentes que descem das auroras boreais), tornando-os reais. Joga com as diferenças entre Universos, e ao mesmo tempo cria novas leis da Natureza que suportem tais diferenças! É uma trilogia mágica, de fácil leitura, mas deliciosa (a meu ver).
Tem outros mas nunca li (a lista de espera de livros para serem lidos é grande), por isso não te posso aconselhar grande coisa dele.
Abraço
Obrigado
unicamente excelente!
adorei!
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